
Guardiola, Valverde, Sarri e Paulo Fonseca. Sérgio Conceição, Sean Dyche e Zidane.
Num tempo em que os cânones do politica e esteticamente correcto se alinham mais com os primeiros (o jogo de posição, a posse, o controlo do jogo) do que com os segundos, estes surgem como contraponto.
Os nomes que aponto são indicativos. Na realidade, são apenas os que me ocorreram, certamente haverão outros.
Começando pelo fim. Zidane, do ponto de vista táctico não tem mostrado nada de muito inovador. Por outro lado, tem-se revelado um bastante satisfatório gestor de egos, e a amálgama semi-anárquica de talentos que é o plantel do Real Madrid, vai resolvendo dentro do campo, quase em autogestão.
A terceira final da Champions League está aí para demonstrá-lo.
Sean Dyche, conseguiu o feito inédito levar o modesto Burnley à Liga Europa, e consta que passou a ter o seu nome num pub local.
Devolveu o futebol britânico à Premier League, directo, simples, uma equipa que poucos pontos conquista fora de casa, mas praticamente inexpugnável no seu reduto. E com o Defour – sim, esse Defour! - como uma das vedetas.
Por último, Sérgio Conceição. Uma aposta num futebol que prescinde do meio-campo, grau de construção próximo de zero, uma ruptura total e difícil de engolir, com aquele que vinha sendo o futebol azul-e-branco.
Sérgio Conceição revelou-se um gestor de homens como Zidane. Não terá tido que gerir egos desproporcionados, mas teve de lidar e motivar um grupo de rapazes, em termos futebolísticos, nalguns casos, da mediania para baixo.
Tal como Dyche, também preferiu um futebol mais directo, e como o seu antecessor, fez do Dragão a sua fortaleza. Contudo, superou-o claramente, conseguindo fazer com que o #MarAzul inundasse o percurso da equipa fora de portas.
Mas no fundo, também nada de espetacularmente inovador fez. Apesar da amnésia da comunicação social em geral, não anda muito longe do, em tempos famoso e admirado, rolo compressor de Jorge Jesus.
Nada de muito estranho, como de resto atesta a admiração recíproca entre ambos.
No entanto, e contrariamente ao que se temia, não se revelou um Jorge Jesus com esteróides.
O temperamento irascível que fazia prever expulsões em catadupa manteve-se controlado, q.b., e para manter o equilíbrio emocional, não precisou que fossem postos fora de acção quatro jogadores dos seus mais directos rivais (Hulk e Sapunaru, entre nós, Vandinho e Mossoró, no SC Braga), como Jorge Jesus na época do rolo compressor.
Ou de antecipar jogos para se isolar no topo da classificação.
Fico a pensar em algo que Luis Cristóvão escreveu recentemente no seu blog:
“(…) ser campeão não é sinónimo de se ser uma grande equipa ou de se ter realizado um grande trabalho no que toca ao desenvolvimento do jogo. Ganhar não oferece garantias de qualidade, não podendo ser esquecido o facto de a vitória acontecer sempre dentro de um ambiente fechado”.
Não consigo avaliar o trabalho de Sérgio Conceição, “no que toca ao desenvolvimento do jogo”.
Talvez o FC Porto não seja uma grande equipa, ou “ofereça garantias de qualidade”, pois não há dúvidas quanto ao facto de “a vitória acontecer (…) dentro de um ambiente fechado”.
Porém, de duas coisas tenho a certeza: Sérgio Conceição (como Dyche ou Zidane), se mais nenhum contributo deu para o desenvolvimento do jogo, desafiou os cânones. E venceu, o que dá que pensar (ou devia dar…).
Além disso, restituiu aos portistas a confiança, que tão abalada andava.
E conseguiu fazê-lo na base da revolta dos votados ao desprezo, da capacidade de superação, do querer.
Como que por encantamento.