Pelas minhas contas, devo ter tomado conhecimento da existência de um clube de futebol, de nome Futebol Clube do Porto, em Janeiro de 1979.
Antes disso a minha cultura futebolística resumia-se a ter consciência da existência de dois clubes: Benfica e Sporting. Algo perfeitamente natural para alguém nado e criado no Algarve.
Por aquela altura o FC Porto terminara na época anterior o seu jejum de 19 anos, e estava prestes a tornar-se bicampeão nacional, com Pedroto e Pinto da Costa ao leme. Eu é que não fazia ideia disso.
Só na época seguinte é que me apercebi de que havia uma coisa chamada "campeonato", e que o FC Porto podia ganhá-lo pela terceira vez consecutiva.
Acabou por não acontecer. Perdemos esse tri para o Sporting de Fernando Mendes, e foi a minha primeira grande desilusão futebolística. Para começar em grande.
No Verão a seguir àquele desgosto, apercebi-me que algo ia mal no reino azul e branco, mas não conseguia perceber o quê.
O presidente e aquele outro senhor estavam zangados, e o treinador gostava mais do outro senhor que do presidente. Que coisa tão parva!
Entretanto, os jogadores iam uns para um lado, com o treinador, e os outros ficavam com o presidente e o novo treinador.
Uma confusão. Não se entendia nada. O que percebia era que o meu heroi, o Gomes, se ia embora para Espanha, e o Oliveira, que na altura não valorizava grandemente como jogador, como passei a fazer depois deno ver jogar no Penafiel e no Sporting, também ia sair. E o treinador.
Compreender o Verao Quente de 80 era pedir demasiado a um miúdo com 10 anos.
Só bem mais tarde, recolhendo informação daqui e dali, é que consegui ficar com algumas ideias sobre o que terá sucedido. Sim, porque como em todas as histórias interessantes, também esta tem várias versões.
Há aquela que fala da rebelião do homem forte do futebol, Pinto da Costa, contra o presidente, e que o presidente quis correr com ele (e correu!), mas o treinador e alguns dos jogadores ficaram contra ele.
Também se conta que a Pinto da Costa e a Pedroto, depois de derrotarem o síndrome da travessia da ponte, não lhes agradaria a subserviência politicamente correta de Américo de Sá, então deputado à Assembleia da República, ao poder central.
A ter optar por uma versão, alinharia por esta última. No fundo aquela que revela a imagem de marca de Pinto da Costa e Pedroto: a rebelião contra o status quo, e que lançou as bases para o aparecimento do FC Porto vencedor.
Portanto, se nos últimos 30 anos Pinto da Costa tem sido o poder instalado, ascendeu a essa posição insurgindo-se contra aquele que era então o poder instalado.
O FC Porto moderno nasce da insurreição e da oposição a quem então comandava. Nasce da divergência.
E com resultados, que atestam sobejamente a bondade da posição de Pinto da Costa e Pedroto. Se Américo de Sá estava certo ou errado, ou se com ele o FC Porto atingiria idêntico patamar de notoriedade, nunca saberemos. Apenas podemos imaginar.