Não é nada de novo, tem sido recorrente desde o "Apito Dourado", a opção pelo low profile, por parte de quem dirige nos destinos do FC Porto, sendo, talvez, a área da comunicação aquela que dá azo a maiores recriminações vindas dos adeptos. Esta temporada não tem sido diferente, e o recente episódio da explosão do treinador após a partida com o Gil Vicente, tornou a passar a imagem de que era aquele, sozinho contra o Mundo. Discordo frontalmente desta perspectiva. Se há campo onde foi notória uma evolução significativa no nosso clube, foi precisamente na área da gestão da comunicação e da gestão da imagem. A anos-luz mesmo, daquilo que aconteceu com Vítor Pereira e Paulo Fonseca, esses sim, completamente abandonados à sua sorte, e sem conseguirem descortinar por si mesmos um rumo a seguir, quanto mais o melhor deles... Neste FC Porto, a gestão da comunicação, e da imagem, convém não esquecer, evoluiram de uma tal forma, que podemos quase encará-las como um verdadeiro "case study". Só não causam mais impacto apenas porque, em termos de escala, são muito claramente abafadas pelos meios, directa e indirectamente, à disposição do nosso rival. No entanto, não estão isentas de erros de percurso. Em condições normais, e por condições normais quero dizer aquelas em que a postura dos adeptos perante o actual treinador, vai para além do " ame-o ou deixe-o" ou do "quem não está com ele, está contra ele", há coisas que dúvido muito que passassem em claro ao comum dos adeptos. Exemplo disso, o recurso ao discurso de José Mourinho como suporte para justificar a necessidade de estabilidade. Em condições normais, qualquer adepto do FC Porto ter-se-ia recordado da comparação entre o Porto e Palermo, ou de que, este mesmo Mourinho, quando o seu ex-adjunto Villas-Boas se sentou na sua cadeira de sonho, alvitrou que o nosso rival iria brilhar na Champions. Previsão que, de resto, tornou a fazer pouco depois de recomendar a manutenção de Lopetegui, em prol da estabilidade. Num clima de normalidade, esta referência não passaria de certo, em claro, ou pelo menos, geraria alguma cuidadosa desconfiança. Mas o momento que se vive foge ao conceito de normalidade. Porquê? Antes de mais, porque faltam as vitórias, que, quer se queira, quer não, os quartos-de-final da Champions e os correspondentes milhões, não substituem. " Em casa onde não há pão, todos ralham, e ninguém tem razão ", diz o povo, e ele sim, tem razão. Depois, porque esse clima de anormalidade foi gerado com sucesso. O episódio Quaresma insere-se aqui na perfeição. Como já escrevi noutras ocasiões, desconheço a origem do affaire Quaresma. O que correu por ai, e muitos acharam por bem, foi que a chamada do, então, capitão de equipa, a dois minutos do final do jogo de Lille, fora um castigo e uma forma de o pôr na ordem ou no seu lugar.
O que Quaresma terá feito para tornar necessária tal medida, posteriormente agravada com a perda do posto de capitão de equipa, não se soube, apenas se conhece o seu feitio, e presume-se o resto.
Pois bem, um treinador que, de acordo com Pinto da Costa, um dos motivos que presidiu à sua foi o facto de os predecessores não terem gerado grande empatia com os adeptos, chega, e qual é uma das suas primeiras medidas?
Precisamente uma que, à partida, basta conhecer um pouco do historial do jogador no clube, tem todo o potencial para dividir os adeptos.
"Dividir para reinar ". Ou, neste caso, dividir para gerar um clima de anormalidade, em que o " ame-o ou deixe-o" e o "quem não está comigo, está contra mim" condicionam determinantemente qualquer expectativa de uma postura meramente racional.
Ao longo da época, esta foi uma medida que, por melhores ou piores que fossem as exibições de Quaresma, os seus efeitos continuaram a sentir-se.
E não ficou apenas por aqui o seu alcance.
Voltemos à questão do abandono do treinador à sua sorte. É claramente relativo.
O treinador surge sozinho por omissão da SAD ou por opção estratégica?