Azul ao Sul

Jogador à Porto: espécie em extinção?

Terminado o jogo contra o Nacional da Madeira no Dragão, um dos comentadores na estação de rádio em que ouvi o relato, notou que alguns dos intervenientes, do nosso lado, teriam ficado incomodados com os assobios provindos das bancadas, e que o Helton teria sido o primeiro jogador a abandonar o rectângulo de jogo.

 

Nada de novo. O Helton já demonstrou noutras ocasiões uma sensibilidade epidérmica a estas situações. Revelando uma reduzida capacidade de encaixe, foi já inclusivamente ao ponto de lançar críticas aos adeptos que o invectivaram, a si e aos companheiros.

 

Lembrei-me da cena quando vi que um dos temas em debate no II Encontro da Bluegosfera, era precisamente o "jogador à Porto".

 

Quando penso nisso, relembro-me inevitavelmente de um desagradável episódio pessoal.

 

Na noite de 1 de Novembro de 2008, estava no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Um dos meus filhos acabara de vir para casa, depois de 23 dias na incubadora e no berçário da Unidade de Neonatologia do Hospital de Faro. Pela primeira vez passávamos um fim-de-semana todos juntos.

 

Naquela malfadada manhã, a puta da alça da alcofa havia de me fugir da mão, nunca percebi como, e o meu outro filho foi de cabeça ao chão. Fez uma fractura craniana, com afundamento do osso. Por causa disso, teve de ficar em observação. Como era fim-de-semana, e porque vivemos na província, não havia neurologista de serviço no, na altura, Hospital Distrital de Faro, e lá fomos os dois para Lisboa de ambulância, enquanto a mãe ficava em casa a cuidar do irmão récem chegado.

 

Abusando da boa vontade dos pais do vizinho de quarto, aproveitei um momento em que o rapaz dormia, para me esgueirar até ao café mais próximo, para comer qualquer coisa.

 

Obtive as indicações de como chegar até lá, mas devo ter-me enganado, pois fui parar a um café/bar apinhado de pessoal do hospital. Quis lá saber. Com a fome com que estava...

 

Havia um televisor, e estava a dar um jogo da Naval 1.º de Maio contra nós. Aquele que perdemos por 1-0.

 

Assisti enquanto comia ao final do jogo, e vi o Bruno Alves, mal soou o apito derradeiro do árbitro, dirigir-se aos adeptos que apupavam a equipa, e pedir calma.

 

Nessa noite, tenho para mim que ganhámos o tetracampeonato. O Jesualdo, depois de dois títulos conquistados, entrara já em velocidade cruzeiro para a saída do FC Porto, e para nosso azar, com túneis e etc. à mistura, ainda fez desnecessariamente mais uma temporada com as nossas cores.

 

Aquele título, é da minha mais firme convicção, que foi uma conquista dos jogadores. Eles quiseram-no, e conseguiram-no. E aquela noite, na Figueira da Foz, marcou o início da caminhada que se viria a revelar triunfal.

 

E naquela noite, o Bruno Alves foi o protótipo do que era, ou deveria ser, um "jogador à Porto".

 

 

 

  

 

 

         

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