Coincidência das coincidências. No mesmíssimo dia em que, após mais um Conselho de Ministros, com mais circunstância, do que pompa, é anunciada ao País a redução de taxa do IVA, de 21% para 20%, a selecção portuguesa perde na Alemanha, com aquela a que os comentadores desportivos televisivos chamam a"besta negra de Scolari ", ou por outras palavras, a selecção da Grécia.
Numa primeira análise a quente, pareceu-me que, do ponto de vista político, a derrota de Portugal caía que nem ginjas!
Sendo o nosso País tão propenso a entrar em negação relativamente ao que corre menos bem, o mais certo seria, que na manhã seguinte e nas que se lhe seguiram, que a notícia da redução da taxa do IVA, suplantasse de caras, a derrota da Selecção. Ao nível do impacto causado, e apesar das vozes discordantes sobre aquela medida, a derrota da selecção seria politicamente excelente!
Erro crasso! Uma vez mais as desgraças humanas sobrepuseram-se a estas notícias, e os holofotes assentaram arraiais na captura do assassino da pequena Mari Luz, e nas sequelas da triste cena protagonizada pela aluna do Carolina Michaelis .
No entanto, chamou-me a atenção que a derrota da Selecção Nacional (qual derrota?) e a descida da taxa do IVA, apesar de serem acontecimentos, aparentemente tão distantes, e sem nada que os relacione, para além de terem ocorrido no mesmo dia, quanto a mim, têm no entanto muito em comum, e dão uma indicação clara de como nos comportamos, enquanto povo, e de como nos tentam levar pela certa.
Ainda há não muito tempo, o Primeiro-Ministro dizia que era uma leviandade falar em descidas de impostos, sem saber os resultados económicos definitivos, relativos ao ano transacto e aos primeiros meses deste ano.
Pese embora a razoabilidade e a prudência reveladas, o que fez foi baixar as expectativas dos portugueses quanto a uma eventual descida de impostos.
Pouco tempo depois, veio o Governador do Banco de Portugal praticamente, reiterar na íntegra aquela posição, acrescentando que uma tal medida teria um impacto nulo na economia, senão mesmo contraproducente.
Nem duas semanas passadas, e eis que vai descer a taxa do IVA. Em 1 ponto percentual. É muito, é pouco? Bem, em 2005 a taxa subiu 2 pontos, e todos acharam que era muito, por isso...será assim, assim. Como disse o Ministro das Finanças e da Administração Pública, é acima de tudo um sinal, tendo em vista restaurar a confiança dos portugueses.
O que é que isto tem a ver com futebol? A selecção portuguesa programou três jogos de preparação para o Euro 2008: com a Itália, campeã do Mundo (perdeu 3-1), com a Grécia, campeã da Europa (acabou de perder 2-1), e com a Geórgia, uma "potência" do futebol europeu, mais lá para a frente, próximo da estreia no Campeonato da Europa.
Portanto, Portugal faz a sua preparação em jogos contra duas selecções campeãs. É claro que, apesar de toda a boa vontade que se possa ter, a probabilidade de obter um resultado positivo não era evidente, como, de resto se veio a verificar. E depois, em vésperas de partir para a Suíça, Portugal defronta a Geórgia, e, em princípio, obtém um resultado minimamente moralizador, que deixe a rapaziada mais animada, ou é a desgraça total.
De caminho, o seleccionador nacional tem vindo a dizer que Portugal não é favorito. Nem por sombras. Isto, apesar de aquele que, hoje por hoje, é o melhor jogador português, Cristiano Ronaldo, afirmar que quer ir à final do Euro.
A estratégia aqui utilizada parece, sem dúvida a mesma, que no caso do IVA. O nosso "defensor dos mininos " tem vindo, sistematicamente, desde aquele malfadado jogo com a Holanda, no Mundial de 2006, a baixar as expectativas nacionais sobre o desempenho da equipa que orienta.
O seu discurso, a que se juntam os resultados dos jogos de preparação, os jogadores lesionados e a retirada de Figo da selecção, concorrem, entre outros factores, para essa estratégia.
Os objectivos também são idênticos: a permanência nos lugares que ocupam. No caso de José Sócrates, assegurar a sua reeleição em 2009, e no de Scolari , a sua continuidade como seleccionador, de preferência, até à sua reforma (dourada!).
A diferença é que, ao contrário deste último , o Primeiro-Ministro, tem a faca e o queijo na mão, para, caso os resultados económicos sejam propícios, tornar a baixar a taxa de IVA, e passar a deter um trunfo de peso, a que pode eventualmente recorrer, com a antecedência adequada ao momento da realização das próximas legislativas.
O seleccionador depende dos resultados que a equipa vier a conseguir. Sendo o futebol, apesar de tudo, mais aleatório que a economia, parece pois, em piores lençóis. Só que o estratagema está tão bem montado, que não há volta a dar. Vai continuar por cá. Se os resultados forem bons, porque é que hão-de despedir o homem? Se forem maus, ele até já tinha avisado que ia ser assim!
Quem dera ao Primeiro-Ministro estar numa posição tão confortável!
Nota: o título original seria "Great minds think alike!"