Azul ao Sul

#assaltoraioqueosparta

 

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Em Março passado, a SIC transmitiu uma reportagem intitulada "Assalto ao Castelo" (#assaltocastelo), onde revelava os meandros da queda do BES.

 

Não me interessa muito o caso de per si, mas achei bastante interessante a revelação do circuito utilizado na lavangem de dinheiro proveniente de Angola, através do ES Bankers of Dubai (ESBD).

 

Segundo se apurou, membros proeminentes do regime angolano canalizavam fundos consideráveis para o ESBD, sem que lhes fossem feitas perguntas.

 

Esse dinheiro era depois aplicado em produtos financeiros com os quais, basicamente, o grupo (GES), o ESI (Espírito Santo Internacional), ou operações falidas, como a Rio Forte, se capitalizavam.

 

Daí, pelo que percebi, através de operações internas, o dinheiro chegava ao BES Angola (BESA), onde era recuperado, devidamente higienizado, através de empréstimos concedidos sem o suporte de garantias adequadas, ou sustentados numa carta de conforto do governo angolano, posteriormente retirada, e de montante correspondente aos 5 mil milhões, que Álvaro Sobrinho "perdeu". Coincidência.

 

Mas claro, quando se põe num buraco, a probabilidade de ele ficar lá enterrado é elevada.

 

Para alguns safarem a parte deles, alguém teve de ficar a arder. Neste caso, por exemplo, Carlos Queirós, entrevistado na peça como um dos que quiseram ganhar algum extra, e acabaram ludibriados. 

 

Pouco tempo antes desta reportagem, em meados de Janeiro, ficáramos a saber que um clube português era o detentor da segunda maior dívida de entre os clubes europeus: o Benfica.

 

Mais ou menos em simultâneo com a reportagem, soubemos através de uma entrevista não adiada, dada pelo presidente do clube detentor da segunda maior dívida da Europa, que as prioridades imediatas da sua gestão seriam reduzir o passivo e, pasme-se, o reforço do investimento no Seixal.

 

Ou seja, nada mais que a perfeita quadratura do círculo: são poucos os que conseguem conjugar uma redução do passivo e ao mesmo tempo investir.

 

Quanto à parte da redução do passivo, o empréstimo obrigacionista, entretanto lançado, veio esclarecer que aquele "reduzir" não passava de um eufemismo.

 

Na realidade, nada mais se trata que de uma conversão de passivo de curto prazo em exigível a médio/longo prazo. Aquilo a que na gíria, poderíamos chamar de: "empurrar com a barriga".

 

Agora, a necessidade premente de investir nestas condições, é que é difícil de compreender. Ou talvez não.

 

Recordarão por certo, que aqui há uns anos atrás, quando as taxas de juros dos créditos à habitação rondavam o irrisório, muito boa gente contraía empréstimos para comprar casa, e incluía no  pacote outros itens: carros, viagens, eletrodomésticos (conheço quem tenha comprado uma Bimby...).

 

Como é que faziam? Básico. Os bancos sobrevalorizavam os valores dos imóveis e facilitavam nas condições de pagamento, muitas vezes ignorando o grau de risco subjacente aos empréstimos feitos.

 

E assim que se gerou a bolha do subprime.

 

Quando as taxas de juro subiram, e alguém deixou de ter condições para pagar o empréstimo com que se sobreendividara, a bolha tornou-se uma bola de neve a rolar encosta abaixo.

 

Mas isto aconteceu com particulares, como qualquer um de nós. A lógica é a mesma para o tal clube.

 

A necessidade imperiosa de investir surge precisamente porque essa é uma das fontes que o sustenta.

 

Pede emprestado mediante orçamentos inflaccionados por construtores amigos, e como qualquer um de nós que não tinha capital para investir numa habitação, o que constrói fica hipotecado como garantia.

 

Com uma pequena diferença. Se algum de nós falhar o pagamento das prestações, arrisca-se a que o banco execute a garantia e nos fique com a casa.

 

O clube em causa não corre esse risco, e por isso, opta em matéria de pagamentos de dívidas, e permitem-lhe essa opção, por seguir (quando segue...) a filosofia do Barão de Itararé: "se o tempo é dinheiro, vamos pagar as dívidas com o tempo".

 

E ninguém, do lado da banca ou do regulador do sector, parece estar muito preocupado com isso. Sinal de confiança a rodos no emitente da carta de conforto?

 

Mas voltemos atrás,  à parte em que se falava de sobrevalorizações e fundos de maneio.

 

Na realidade, nada disto é novo.

 

Permitam que vos recorde um instrumento financeiro chamado Benfica Stars Fund.

 

Para isso, vou socorrer-me do que escreveu Paulo Pena, no livro "Jogos de Poder" (A Esfera dos Livros, 2014, págs. 92 e 93):

 

"Quando foi criado, em 2009, o Benfica Stars Fund valia 40 milhões de euros, divididos em 8 milhões de unidades de participação. A PT Prestações, através da Ongoing, comprou 2 milhões de «acções», por 10 milhões de euros. Hoje, cada unidade de participação vale 3,6 euros. E o valor líquido do fundo é de 29,4 milhões.

 

Não é uma surpresa. O próprio Benfica Stars Fund define o «perfil do investidor a que se dirige»: «Considerando os riscos inerentes, o Fundo adequa-se a investidores com (...) um perfil de investimento agressivo. Será esse o caso da PT Prestações, equiparado a um fundo de pensões. A PT não comenta.

 

Entre os «activos» do fundo estão jogadores como Cardozo e Gaitán. E outros, como Coentrão, Jávi Garcia e David Luís já vendidos. Mas jogadores como Schaffer já obrigaram ao registo de «imparidades». Outros, como Alan Kardec, Felipe Menezes, Yartey e Urretavizcaia são, até ver, maus negócios. O relatório e contas do fundo regista mais de 12 milhões em «menos-valias». Em síntese: os 20 jogadores do fundo custaram 32 milhões, e no último relatório de contas valiam 19,6.

 

A Ongoing garante que este não é o único investimento realizado pelo Fundo F e que a rentabilidade dos outros cobre as perdas registadas no Benfica Stars Fund. Mas a única coisa que se sabe é que outro investimento do Fundo F é uma carteira de acções, superior a 2 milhões de euros, da Impresa e da Cofina, cujos títulos desvalorizaram muito desde 2009. Mas têm uma coisa em comum com o Fundo de jogadores do Benfica: são investimentos na esfera de interesses de Nuno Vasconcellos [Ongoing].

 

Muito menos evidente é o interesse nestas aplicações dos reformados da PT..."

 

Em resumo, o Benfica Stars Fund foi constituído e adquiriu os direitos económicos  de vários jogadores do clube.

 

Para alguns desses jogadores perspectivava-se um futuro risonho. Para outros, nem tanto.

 

Se no caso dos primeiros, facilmente se esperaria a realização de mais-valias, tal dificilmente aconteceria no caso dos segundos. 

 

Contudo, por estranho que pareça, a geração de mais-valias não parece ser, nem de longe, a maior das preocupações do fundo.

 

Na generalidade dos casos, independentemente das expectativas de valorização ou não, o que se verificou foi que na avaliação prévia à sua aquisição pelo fundo, os valores dos passes dos jogadores foram claramente inflaccionados.

 

Os proventos assim artificialmente gerados, beneficiaram em primeira instância, o clube, que recebe pelos seus activos um valor superior ao seu real valor, e forma-se mais uma bolha financeira,  tão ao jeito do subprime.

 

Em parte, também a bolha financeira de que Pippo Russo (@Pippoevai) fala no seu livro sobre Jorge Mendes, "A Orgia do Poder".

 

Mas quem seriam então os investidores beneméritos, que não se importam de investir nestas condições? 

 

A PT, através da PT Prestações foi um deles.

 

A Ongoing foi outro, por intermédio do seu Fundo F.

 

E por curiosidade, onde é que a Ongoing vai buscar o capital para investir?

 

Para responder,  recorro a um exemplo, retirado de novo do livro de Paulo Pena, só para terem uma idéia:

 

"Em fundos de private equity, no Luxemburgo, o maior offshore da zona euro, Vasconcellos e o seu grupo geriam perto de 300 milhões que lhes foram confiados, em 2008 e 2009, pelo GES, pela PT e pelo Montepio.

 

Entre os dias 3 de Novembro e 15 de Dezembro de 2008, logo a seguir à nacionalização do BPN, João Borralho, pelo BES Vida, e João Zorro, pelo Espírito Santo Activos Finaceiro Premium, entregam à Ongoing Internacional, com sede no número 11 da Rue Aldringen, no Luxemburgo, 150 milhões de euros. Este dinheiro, de duas empresas do grupo GES, constitui o sub-fundo private equity classe E (Fundo E, doravante), detido a 100% por aquelas duas empresas do universo BES. Ou seja, a ESAF e o BES Vida são os accionistas únicos do fundo. Mas quem o gere é a Ongoing International Partners, com sede no número 23 da Avenue Monterey, cidade do Luxemburgo. (...) este fundo investia em derivados, como os CDO Panther. Mas não se ficava por aqui..."

 

GES, PT e Ongoing, por si, ou com fundos dos dois anteriores. Sabe-se que Joe Berardo foi outro dos investidores, porque o próprio, à data se vangloriou disso.

 

Porém, houve alguns investidores cujas identidades permaneceram desconhecidas.

 

Vamos imaginar que os investidores secretos são oriundos de um pais, como, por exemplo, Angola, e que o dinheiro que aportam, tem origens, digamos, duvidosas.

 

Pegar nesse capital 

 

Aqui chegados, peço-vos que retrocedam ao 'Assalto ao Castelo".

 

Se bem se recordam, houve dinheiro angolano que foi depositado no Dubai, e que dai, foi aplicado em operações manhosas do GES.

 

Ora, o que foi o Benfica Star Fund senão uma operação manhosa do GES?

 

Uma operação em que através do ESAF geriu o fundo, e encapotado através da Ongoing ou por si só, assumiu o papel "investidor", e ainda captou o investimento da PT, o saco azul da economia portuguesa na altura.

 

Agora dêem asas a vossa imaginação, e vão mais além. 

 

Vamos imaginar que os investidores secretos são oriundos de um pais, como, por exemplo, Angola.

 

E agora, tentemos refazer o circuito do dinheiro angolano do "Assalto ao Castelo", mas utilizando o Benfica Stars Fund.

 

O dinheiro angolano é depositado no Dubai, e de lá,  é transferido para o universo BES.

 

Este, como se disse, por si, uma vez que lhe cabia assegurar a componente de liquidez do fundo, ou indirectamente, através da Ongoing, canaliza esse capital para o Stars Fund.

 

Os investidores-mistério, esses têm a vida ainda mais facilitada, pois a coberto do secretismo do fundo, basta-lhes investir directamente, sem complicações.

 

Com esse capital, o fundo adquire os direitos dos futebolistas, e o clube obtém uma preciosa receita, de cuja origem duvidosa o rasto já se perdeu pelo caminho.

 

Os que interessam, acabam por recuperar os seus investimentos à medida que vão sendo alienados passes de jogadores que geram mais-valias.

 

Nesse ponto, podem sair, e levar para casa belas somas de capital, de uma limpeza inquestionável, senão por mentes perversas.

 

Os que ficam, são os que vão suportar as imparidades dos jogadores em que ninguém pega e que foram sobreavaliados quando adquiridos.

 

E podem ter a certeza que essas imparidades existiram, e que alguém as suportou, apesar de pouco tempo antes do negócio com a Lone Star, à cautela, o clube ter resgatado os monos que por lá permaneciam.

 

Pelo menos se tivermos em conta o comentário de um especialista na matéria: um adepto benfiquista, retirado do blog "Visão de Mercado" (1), e que reproduzo em seguida:

 

"(...)

2. O Benfica não pagou 29M mas apenas 10,5M já que 22M que pertenciam ao fundo estavam depositados nos bancos pois os lucros nunca foram distrbuidos. Como alguém afirmou:

 

"Inicialmente, o Benfica Stars Fund representou um investimento de 40M€, tendo sido avaliado por 34M€ (28,9M€ × 100%/85%), e estava avaliado em termos contabilísticos por 27M€, devido à " Amortização dos passes dos jogadores".

 

O fundo tem dinheiro no banco das vendas dos jogadores: 22M liquídos, paga 12M pelos passes dos jogadores, o valor do fundo será de 34M (22M + 12M).

 

Como o Benfica tem 15%, paga 85% (85% × 12M = 10,5M) ao fundo.

 

 

Isto é, os investidores do Fundo perderam dinheiro ao contrário do que os trolls afirmam.

 

(...)"

 

(comentário feito por Manuel, às 20:30 do dia 8 Setembro, 2014)(2)

 

Porventura, terei ficado excessivamente impressionado com o #assaltocastelo, mas, não vejo grande diferença entre o que aí foi desvendado e o Benfica Star Fund. 

 

Se num caso há suspeitas de branqueamento de capitais, no outro não haverá menos.

 

Se cruzarmos o rol dos intervenientes com os envolvidos, por exemplo, na "Operação Marquês", estão lá quase todos: BES, PT, Ongoing. 

 

Só falta um. O mesmo de sempre: o Benfica. 

 

Se houve matéria para investigar e fazer um #assaltocastelo,  não haverá matéria para ir um bocadinho mais além, e lançar um #assaltoraioqueosparta? 

 

Será que tal como o "Apito Dourado" terminou em Leiria, os #assaltos acabam numa muralha vermelha?

 

Recentemente resolveram pôr a liderar a investigação aos emails do #BenficaGate,  a mesma procuradora que tem entre mãos o caso BES.

 

Será que alguém se apercebeu das coincidências, ou será mero acaso?

 

Para o que der e vier, fica aqui uma singela sugestão de investigação. Livre de direitos de autor.

 ____________ 

(1) https://blogvisaodemercado.pt/2014/09/benfica-investe-quase-30-milhoes-para/

(2) Peço imensa desculpa, mas não tive paciência para confirmar os valores indicados. Mas quem sabe, sabe...

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